by Pietra Pozzetti
O que seria coeso em pleno século vinte e um?
Nós somos acostumados com tantas polêmicas, tendências, crimes e rixas que nada mais parece coeso de verdade. A moda, como qualquer outro fenômeno cultural, deveria ser coesa, mas como é difícil distinguir o pervertido de icônico. Qual é a linha tênue?
Coco Chanel era mediadora e aliada do partido nazista durante a Segunda Guerra Mundial.
Maurizio Gucci foi assassinado e a mandante do homicídio foi ninguém mais, ninguém menos, que sua ex-esposa, Patrizia Reggiani.
John Galliano e sua aberta opinião sobre Hitler em seu cargo de diretor criativo da Dior.
Kate Moss sendo a percursora do Heroin Chic nos anos 2000.
Posso citar inúmeros casos pervertidos beirando “icônicos”.
O poder dá acessos, opiniões e embriaguez aos meros mortais que escalaram tudo que um dia sonharam. E por isso, falam abertamente ou fazem sem titubear algo extremamente pervertido, achando que nunca serão impunes por aquilo.
Os acessos — Ah, os acessos!
Quais os acessos de um homem de 35 anos, nascido de um lar de classe trabalhadora, formado em uma das mais prestigiadas faculdades de moda e artes, diretor criativo de marcas como Givenchy, Dior e Maison Margiela?
Acessos a orçamentos generosos, produções de desfiles espetaculares, exposição global e prestígio, status de celebridades, relação direta com o Grupo LVMH, e por aí continuo sem parar.
Todos esses acessos te levam a um único ponto: a embriaguez do poder.
A ascensão de Galliano ao topo da moda, lhe conferiu um nível de poder, influência e adulação raros até mesmo no mundo do luxo. Esse poder, ao mesmo tempo que alimentou sua genialidade criativa, também contribuiu para um ambiente de isolamento, impunidade e descontrole.
É inegável que John é um gênio absoluto da moda, mas será um bom ser humano? É possível divergir a arte do artista? Fica aí o questionamento.
Mas a pergunta real é se realmente consumimos uma moda coesa e consciente.
Essa é uma pergunta profunda.
Chego a conclusão que não, a moda não é coesa. Ela é ambígua, contraditória e complemente instável. E é essa fluidez que faz parte do seu poder cultural, mas também das suas limitações éticas.
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