by Pietra Pozzetti
Sabrina Carpenter compreendeu uma verdade desconfortável da indústria do pop feminino: autenticidade não é um valor, é uma estética. E ela soube estetizar o papel da “pop girl” com precisão quase cínica. Enquanto outras artistas tentam provar profundidade e inovação, Sabrina escolheu o caminho oposto, e venceu.
Sua imagem é um projeto visual deliberado: microvestidos, saltos arquitetônicos, rendas infantis e laços estrategicamente posicionados. O guarda-roupa de Sabrina é uma fantasia pós-moderna da “coquette”, inspirada tanto pelas pin-ups dos anos 50 quanto pelas lolitas estéticas dos anos 2000. Não é exatamente novidade, é repetição com consciência histórica. Sabrina é herdeira direta de um tipo de popstar que sempre usou o corpo como performance de conceito: Britney Spears em sua fase I’m a Slave 4 U, Madonna com seu corset Gaultier, Lana Del Rey entre lágrimas e delineador. A diferença? Sabrina não oferece conflito nem transformação. Ela oferece consistência.
Em tempos de urgência narrativa, em que cada artista parece obrigado a entregar um arco dramático (trauma, superação, reinvenção), Sabrina se recusa a sair do personagem. E essa decisão é radical. Ela não quer se despir da estética para revelar profundidade: ela quer mostrar que a estética é a profundidade. Seu figurino não tenta comunicar “verdades emocionais”, nem busca ser vanguardista. Ele comunica uma única coisa: domínio. Domínio da própria imagem, domínio das expectativas do público, domínio do algoritmo. Ela sabe que o mundo ama odiar uma loirinha performática de olhos arregalados e entrega isso com perfeição calculada, como uma boneca que já decorou suas falas e agora improvisa, com sarcasmo.
Enquanto o feminismo pop do início da década de 2010 gritava “não me objetifique”, Sabrina sussurra: “pode olhar, eu já transformei isso em capital.” E é exatamente aí que mora sua inovação. Não há enfrentamento, não há denúncia. Há adesão total à lógica do espetáculo, com consciência e sem vergonha.
Ela é o produto, mas também é a produtora. A musa, mas também a estrategista. A menina dos lacinhos, mas também a mulher que sabe onde cada um deles está amarrado (e por quê). No fim das contas, Sabrina Carpenter não quer que você a leve a sério. Ela quer que você a subestime. Porque é assim que ela vence, enquanto você ainda está tentando entender se tudo aquilo é só um figurino.
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