by Pietra Pozzetti


Há uma frase silenciosa que atravessa cada loja, desfile e feed de moda: Não exagere.”
Mas exagerar é exatamente o que a moda sempre fez de melhor.

Durante anos, fomos treinados a reduzir: linhas limpas, cores neutras, quiet luxury, elegância “inteligente”. E por trás disso, uma ideia sutilmente violenta: a de que vestir-se com ousadia seria uma ameaça à credibilidade, ao bom gosto, à “seriedade”. Agora, com a volta do maximalismo (plumas, estampas, sobreposições, drama) surge outra ameaça: a de parecer, Deus me livre, interessante demais. E o medo não é estético. É social.

O maximalismo é incômodo porque exige presença. Ele desafia os códigos de invisibilidade que vestem o poder: alfaiataria discreta, tons sóbrios, sobriedade cara. Quando você usa um casaco peludo amarelo-limão ou um brinco que mais parece um lustre barroco, não está apenas escolhendo um look, está declarando que não quer passar despercebida. E isso, para muita gente, ainda soa ofensivo. Em um mundo que cobra moderação estética das mulheres para que sejam levadas a sério, o exagero se torna insubordinação. Foi assim com as divas disco dos anos 70, com as drag queens dos anos 80, com os estilistas queer que criaram beleza onde só existia marginalização.

E agora, com a nova geração de designers e consumidores trazendo de volta o absurdo estético com orgulho, a moda volta a ser o que deveria ser: teatral, incômoda, irônica, libertadora. Alguns exemplos icônicos atuais são Marc Jacobs FW 24, com silhuetas gigantes, roupas que parecem ter saído de um pesadelo barroco; Diesel e Balenciaga com hiperobjetos em forma de roupas e até mesmo em Copenhagen Fashion Week, com muitas camadas, texturas e proporções que desafiam o senso comum. E no mainstream? Celebridades como Doja Cat, Rihanna, Cardi B e Zendaya, que tratam o tapete vermelho como um palco e não como uma formalidade.

A verdade é simples: exagero sempre foi um privilégio masculino (veja os papas, os reis, os CEOs de tênis laranja com terno bege). Mas quando uma mulher exagera, a moda vira ameaça.

Então, quem tem medo do exagero?
Provavelmente, quem ainda acredita que vestir-se bem é o mesmo que desaparecer com elegância.

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