by Pietra Pozzetti


O consumidor de luxo adora duas coisas: exclusividade e uma boa história para contar.
Mas o que acontece quando a etiqueta de uma bolsa de R$25 mil revela três palavrinhas que alguns ainda encaram como blasfêmia?
Made in China.
De repente, o mito do artesão italiano à beira de um lago alpino, costurando sua peça à luz do entardecer, se desfaz na mesma velocidade que a cola de uma fivela mal fixada.

Vamos direto ao ponto: o problema não é a China.
O problema é que o luxo vendeu por décadas um romance geográfico: Paris, Milão, Florença, Londres. Como se o local fosse tão valioso quanto o produto.
E quando o público descobre que aquele “feito à mão” é, na verdade, “feito à mão… por 200 mãos” numa fábrica do outro lado do mundo, o choque não é sobre qualidade, mas sobre narrativa. Produzir na China (ou Vietnã, ou Bangladesh) não significa, automaticamente, má qualidade.
Significa otimizar custos e aumentar margens, algo que até as maisons mais aristocráticas fazem de forma silenciosa.
Só que, no luxo, o preço nunca é sobre custo: é sobre valor simbólico. E quando o mito do artesanato europeu cai, a conta emocional do cliente não fecha.

O mesmo cliente que torce o nariz para um “made in China” na bolsa Hermès provavelmente está digitando essa indignação num iPhone (também made in China) enquanto veste um suéter “italiano” costurado na Romênia.
Ou seja: a indignação é seletiva.

O que está em jogo não é o país de produção, mas a credibilidade do storytelling de marca.
Luxo não é apenas um produto: é a história que se compra junto.
E quando a história desmorona, nem o zíper dourado segura o mito fechado.

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