by Pietra Pozzetti


Política sempre foi teatro, mas hoje o espetáculo se estende do plenário às redes sociais, e o figurino é protagonista. O que deveria ser arena de ideias transformadoras virou desfile de personagens, onde a roupa comunica mais que discursos. Cada corte de terno, cada cor de gravata, cada vestido é mensagem calculada, performance de poder em tempo real.

O poder histórico sempre entendeu a força da estética. Mussolini uniformizou o fascismo: botas, cinto largo e gestos coreografados criavam aura de comando absoluto. Jackie Kennedy usava o icônico paletó rosa como identidade política, e Michelle Obama transformou vestidos coloridos em soft power, equilibrando autoridade e empatia. Hoje, essa lógica não mudou. Apenas ganhou velocidade, alcance e ferramentas digitais.

No cenário atual, políticos como Emmanuel Macron, Donald Trump, Jair Bolsonaro e Lula demonstram que a moda é arma estratégica. Macron, mangas dobradas e postura casual, projeta proximidade; Trump ostenta sua gravata vermelha como quem segura uma bandeira de guerra (um uniforme que já não é mais dele, mas de toda uma estética política), transmitindo poder e agressividade; Bolsonaro, camisetas informais, reforçava a narrativa de homem do povo; enquanto Lula prefere o terno tradicional, pesado, como se cada paletó fosse uma tentativa de costurar estabilidade num país eternamente instável. Cada detalhe é cuidadosamente pensado para ressoar nas câmeras, nos clipes de notícia e nos memes que viralizam em minutos.

As mulheres na política exploram essa linguagem visual de forma ainda mais estratégica. Giorgia Meloni utiliza roupas discretas para afirmar autoridade sem abrir margem para julgamentos de aparência; Alexandria Ocasio-Cortez transforma cada look em manifesto político, estampando mensagens que viralizam instantaneamente. Nas redes sociais, o figurino comunica posicionamento, valores e até engajamento político mais rápido que qualquer pronunciamento formal.

Mas a ironia é cruel: enquanto a estética domina, o conteúdo muitas vezes se perde. Camisetas de protesto viram fast fashion; slogans viram merchandising; hashtags e memes transformam indignação em tendência. A política se reduz a marketing visual, e o eleitor consome símbolos como quem segue influencers, confundindo performance com substância. O corte do blazer, a cor do vestido e a pose para foto podem ter mais peso na percepção pública do que planos de governo, impostos ou políticas sociais.

O papel da mídia e das redes sociais é amplificador: um look viraliza, um deslize é eternizado em GIFs, e o debate político se transforma em pauta de estilo. O eleitor aplaude ou vaiava não pelo que se propõe, mas pelo que vê. Assim, democracia e espetáculo se fundem: o Congresso se torna passarela, os comitês de campanha, estúdios de fashion marketing, e o público, plateia que julga pelo figurino.

No fundo, a política contemporânea funciona como uma estratégia de branding: cada imagem, cada roupa, cada acessório é parte de uma narrativa visual pensada para engajar, viralizar e consolidar identidade. A grande ironia é que, enquanto o look comunica tudo, a substância (as políticas, decisões e impactos reais) muitas vezes fica em segundo plano.

A pergunta que sobra é: estamos consumindo ideias ou apenas figurinos cuidadosamente curados para likes, manchetes e memes?

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