by Pietra Pozzetti


Existem sapatos que foram criados para agradar. E existem as tabis. Poucas peças na história da moda carregam tanta contradição: um design que nasceu de uma lógica milenar japonesa de disciplina e funcionalidade, mas que se transformou, nas mãos de Margiela, em ícone de estranhamento e provocação estética. Não se trata de beleza. Trata-se de aprender a gostar do desconforto.

As tabi originais surgiram no Japão do século 15, muito antes de se tornarem culto fashion. Eram meias de algodão que separavam o dedão, usadas junto com sandálias zōri e geta. O formato tinha um objetivo claro: dar estabilidade ao corpo, estruturar o passo. Séculos depois, na era Meiji, apareceram as jikatabi, versões reforçadas com sola de borracha, adotadas por trabalhadores e até militares. O dedão separado, que hoje parece extravagância, já foi símbolo de disciplina e pragmatismo.

Em 1989, Martin Margiela leva essa forma para Paris e muda o jogo. Sua primeira coleção trazia as tabis brancas deixando rastros de tinta pelo chão da passarela, um gesto de manifesto: a moda, daqui para frente, caminharia em outra direção. O que no Japão significava tradição, no Ocidente virou ruptura.

Desde então, as tabis vivem no entrelugar: são amadas como arte conceitual e odiadas como aberração. Dividem plateias, inflam debates, funcionam como um verdadeiro “teste de Rorschach fashion”: você não vê apenas o sapato, mas também sua própria tolerância ao estranho.

A cultura pop só amplificou a polêmica. Das celebridades que as ostentam como troféu intelectual às histórias virais no TikTok de tabis roubadas, cada aparição reforça o mito. Quanto mais zombam delas, mais elas se consolidam como código de iniciados: só entende quem aceita o incômodo.

Usar tabis nunca foi sobre caminhar bonito. É sobre declarar, com cada passo, que você prefere o incômodo à indiferença.

Posted in ,

Deixe um comentário